Lançamento - História de uma cabeça e das suas ideias

História de uma cabeça e das suas ideias

Há muito, muito, tempo houve umas ideias que nasceram, dentro de uma cabeça.

Ora, essas ideias, eram especiais: elas tinham um sonho, elas queriam fazer parte de uma história. Não de um conto… Não de uma história pequenina… Aquelas ideias tinham ambição, elas queriam fazer parte de uma história grande… de fantasia… de aventura…
O tempo passou. As agendas foram virando as folhas… e as ideias mantinham-se fechadas dentro daquela cabeça.
Eu não sei se vocês sabem, mas qualquer estudante de filosofia sabe, que as ideias nasceram para ser partilhadas, para comunicar com outras ideias. E quando não lhes permitem fazer isso, elas ficam tristes:
· algumas, desanimadas, desistem, vão-se embora e nunca mais voltam,
· outras, decidem ficar e tentar mudar as coisas.
E as ideias de que fala esta história não eram ideias de desistir, não! Elas queriam cumprir o seu sonho! E elas sabiam que, enquanto permanecessem fechadas naquela cabeça, nunca chegariam a fazer parte de uma história. Por isso, começaram a fazer pressão, a fazer pressão para conseguir sair.
E um dia fizeram tanta pressão que aquela cabeça se sentou frente ao computador. E assim que os dedos tocaram aquele teclado, as ideias colocaram-se logo em fila, para sair.
E ao longo dos dias que se seguiram, de cada vez que aquela cabeça se sentava no seu computador, as ideias que já lá se encontravam à espera vinham, felizes, e brotavam para o teclado através dos dedos.
Bem, nem sempre! Às vezes, se passavam muitos dias em que a cabeça não lhes ligava, quando se sentava ao computador não vinha nada: as ideias estavam amuadas. Mas a cabeça tinha um truque (cada cabeça cria os seus próprios truques): bastava começar a ler as ideias que já estavam escritas e as restantes não resistiam e lá vinham elas a correr a acotovelar-se para chegarem primeiro.
Mas o que motivava aquela cabeça a este tipo de trabalhos?
Eu não sei se vocês sabem, mas qualquer estudante de filosofia sabe, que há dois grandes tipos de ideias:
  • As coloridas, as alegres, que são aquelas que dão energia e fazem as cabeças felizes, e
  • As outras, as cinzentas, as que retiram energia sem produzir nada. As mais frequentes nesta categoria são as preocupações.

É possível que alguns de vocês saibam do que estou a falar! Ora as ideias cinzentas têm uma característica perigosa, elas são egoístas, terrivelmente egoístas, elas querem a cabeça só para elas.

Pode ser uma preocupação pequenina mas, se a cabeça lhe dá alguma atenção, ela começa a mexer-se, a rodar, a empurrar e, em menos de nada… todas as outras ideias estão encostadas a um canto. Tomem cuidado com as ideias cinzentas!!!
As ideias que queriam ser história eram ideias coloridas, e eram mágicas.
Eu não sei se vocês sabem, mas qualquer estudante de filosofia sabe, que todas as ideias coloridas têm um pouco de magia, mas mágicas, mágicas, são só algumas. E a magia tem a ver com o poder para fazer frente às cinzentas, para as vencer, para as enxotar, para as colocar no seu devido lugar.
E quando aquelas ideias coloridas que queriam ser uma história eram libertadas, elas invadiam aquela cabeça e não havia ideia cinzenta que se conseguisse manter lá dentro.
Mas não fiquem a pensar: Ah, se comigo também fosse assim! Todas as cabeças, todas, possuem ideias coloridas mágicas. Eu não posso dizer-vos quais são as vossas (elas são diferentes de cabeça para cabeça) mas posso desafiar-vos a encontrá-las. Porque o segredo de uma cabeça feliz… é aprender a usar a magia da cor no combate ao cinzento.
Mas chega de filosofia… dizia eu que as ideias foram surgindo e foram sendo escritas.
– E não se esgotavam? – poderão vós perguntar.
Eu não sei se vocês sabem, mas qualquer estudante de filosofia sabe, que as ideias atraem ideias geralmente do mesmo tipo. As coloridas chamam ideias coloridas, as cinzentas chamam cinzentas. E se isso até é verdade entre cabeças diferentes, imaginem dentro da mesma.
As ideias coloridas da história foram chamando outras e mais outras e, um dia, o primeiro livro ficou pronto… e nasceu o segundo volume… e começou-se o terceiro.
Mas, apesar de vários anos terem passado, as ideias continuavam fechadas na gaveta: as tentativas de as partilhar tinham sido tímidas, mesmo muito tímidas.
– E porquê? – perguntarão vós.
Não sei se vocês já ouviram falar em ideias de insegurança, os estudantes de filosofia conhecem-nas bem. São um tipo muito especial de ideias cinzentas que são capazes de impedir que as melhores ideias de vontade de se transformarem em ideias de acção.
As ideias de insegurança são a explicação para o facto de as nossas ideias não terem sido partilhadas.
E é aí que entra nesta história uma cabeça muito querida e muito especial, uma cabeça de Margarida*. Os efeitos da partilha de ideias entre as duas cabeças foram imensos, mas hoje vou-me centrar apenas num.
Foi ela que começou a transmitir à nossa cabeça ideias importantes, ideias de confiança, ideias de acreditar, que fizeram a nossa cabeça começar a pensar que talvez fosse possível. Foi ela que, vendo que isso não era suficiente, certo dia disse à nossa cabeça: “Amanhã vou à Oficina. Dá-me o teu livro, que eu levo-o”.
Eu não sei se vocês sabem, mas qualquer aspirante de escritor deveria saber que a Oficina é um lugar muito especial, é uma fábrica de tornar sonhos em realidade, onde trabalha um conjunto de cabeças muito especiais, que acarinham as ideias dos outros, como se fossem delas. O nome completo é Do livro, Oficina do Livro.
A cabeça ainda não se sentia preparada para enviar o livro para a Oficina, mas não teve coragem de dizer que não.
E enquanto a nossa cabeça ficava perdida em ideias cinzentas de dúvida, lá partiram as suas ideias coloridas, todas felizes para a Oficina, com as folhas presas por um elástico e enfiadas numa capa emprestada a fazer publicidade a uma acção de formação, que foi o que na altura se conseguiu arranjar.
Ainda o calendário não tivera tempo de mudar duas folhas, quando a nossa cabeça recebeu um telefonema da Oficina, a marcar uma conversa para falar sobre o livro. Vocês não imaginam o efeito daquele telefonema naquela cabeça: foi uma explosão de cor.
Depois, seguiram-se todos os passos mágicos que dão vida aos sonhos dos livros, e que foram todos saboreados, um por um… graças uma cabeça muito especial, e muito querida, da Oficina, chamada Rosário**.
E depois veio o mapa, veio a capa, o separador, os convites…
As ideias estavam satisfeitas com aquela mapa… Sentiam-se deslumbrantes dentro daquela capa… O separador dava-lhes imensa classe… Os convites eram prestigiantes… A verdade é que com aquele tratamento VIP, o livro ficou um pouco mais grosso, com as suas ideias inchadas de orgulho.
É uma experiência maravilhosa dar vida a um sonho.
Se já não se lembram do que estou a falar, deixo-vos a sugestão: procurem um sonho. Não precisa de ser um sonho grande, para perceberem o que quero dizer pode ser um sonho pequenino. Olhem bem para ele, durmam com ele o tempo necessário, e verão que as ideias de solução vão começar a aparecer. Depois, é só segui-las, acreditar, e um dia ele torna-se realidade. Experimentem… é muito, muito bom. Se precisarem, peçam a ajuda de outras cabeças. Ah, é verdade: muito cuidado com as ideias cinzentas!


* – Margarida Fonseca Santos
** – Rosário Araújo – Oficina do Livro

2 comentários:

Ana Branquinho disse...

Esta História é uma das mais lindas mensagens que li na vida.
É mesmo verdade, eu sei... as "bandidinhas" das ideias cinzentas são tramadas e temos de estar em permanente conflito com elas.
Ah já li As Sete Cores de ONÍRIS, simplesmente adorei, apenas fiquei desiludida por ainda não poder conhecer a continuação da aventura... Mas a paciência também é uma virtude (embora difícil).
Um beijinho para a escritora, continua a partilhar connosco as ideias coloridas, para nos ajudadar a lutar com as negras e cinzentas.

Rita Vilela disse...

Obrigada Ana

As tuas palavras enchem-me a cabeça de ideias coloridas.
Um beijinho muuuuuuuiiiiiito grande